John Wycliffe, Pré-reformador

Ele traduziu a bíblia para o inglês, criou uma nova ordem de padres, faleceu e teve seu cadáver queimado por vingança da igreja católica. A vida e a obra de John Wycliffe, teólogo inglês e considerado um dos precursores da reforma protestante.

Apresentação

Entre as diversas tentativas de reforma e rebelião contra o poder e as doutrinas da igreja católica romana, podemos citar a atuação de John Wycliffe. Vivendo em um período de incertezas e opressão, anterior a Zwingli e Lutero, (CASTRO, 182) impulsionados pela guerra dos cem anos e pela peste negra, em contraponto a uma religião dona de mais de um terço das terras, composta por um clero corrupto e imoral, surgem as ideias reformistas de John Wycliffe, um dos primeiro ou considerado o primeiro reformados da idade moderna.

Origens

Nascido no ano de 1328 e falecido em 31 de dezembro de 1384. John Wycliffe foi professor da Universidade de Oxford e um considerado por muitos um dos precursores da reforma religiosa que se iniciou na Europa nos séculos XV e XVI. Também fez uma tradução da bíblia para o inglês, conhecida como bíblia de Wycliffe.

Não se sabe o ano, nem o local exato do nascimento de John Wycliffe, mais sabe-se que sua família era dona de inúmeras propriedades na região de Ipreswell, condado de Yorkshire, e calcula-se o ano de seu nascimento entre 1320 e 1328.

Em 1345, foi enviado pela família para Oxford, estudando primeiro no Balliol College, onde tornou-se mestre, tendo renunciado ao cargo. Voltou a Universidade, onde iniciou seus estudos de teologia e legislação canônica.

Acredita-se que a primeira influência de Wycliffe foi do professor Tomás de Bradwardine, tendo introduzido Wycliffe nos ensinamento da graça divina, mais tarde defendidos por Lutero. Outras influências intelectuais foram as teorias do irlandês

João Escoto Erígena (810-877) e do inglês William de Ockham (1280-1349).

Em 1361 foi ordenado sacerdote e passou a exercer a função de vigário em Filligham. Voltou para Oxford, onde atuou como professor na própria universidade, em 1365 formou-se em teologia e em 1372 obteve o doutorado.

As idéias

Wycliffe como teólogo se destacou pela defesa dos interesses nacionalistas ingleses, contra as demandas do papado, ganhando fama de patriota e reformista. Ele acreditava que havia divergências entre a vida do clero católico e os ensinamento de Jesus Cristo.

Uma dessas divergências era a questão da riqueza do clero, ele defendia o retorno a pobreza dos tempo dos apóstolos. Onde os clérigos deveriam ser desprovidos de bens e seu sustento ficaria a cargo da organização eclesiástica. Essa idéias são defendidas na Summa Theologiae, que prega a renúncia do poder temporal por parte da igreja.

Posteriormente na obra Civili Dominio, critica a postura do papado de Avinhão (1309 à 1377), ao seu sistema de venda de indulgências e a vida luxuosa. Essa obra possui 18 teses publicadas em 1376.

Considerado o precursor da idéias de Lutero, pois questionou a autoridade do papa, c a venda de indulgências e negou a realidade da transubstanciação – a igreja romana dizia que a substância do pão e do vinho é mudada em corpo e sangue de

Jesus Cristo durante a missa. Ele entendia que a substância dos elementos era indestrutível e que Cristo estava apenas espiritualmente presente no sacramento.

A Censura da Igreja

Apesar do apoio popular e das autoridades locais, Wycliffe foi convocado a prestar esclarecimento junto ao Bispo de Londres, durante sua inquirição quatro monges foram seus advogados. Nesse debate foi acusado de blasfêmia e heresia.

Mesmo assim obteve forte apoio do parlamento inglês, pois esse acontecimento foi paralelo a guerra dos 100 anos, onde tudo que era associado a França era mal visto pelo povo inglês, entre eles o papado na França. Onde enviar dinheiro para uma organização francesa era visto como sustentar o inimigo.

Devido a sua fama como pregador e opositor do papado, foi convidado pelo parlamento para discursar contra as taxações papais. Com base nas afirmações de Wycliffe o parlamento decretou que a submissão da Inglaterra a uma autoridade estranha era ilegal, pois havia sido decidida sem anuência da nação. Até o fim do reinado de Eduardo III, em 1377, a

Inglaterra era o único Estado que assumia, contra a Igreja, oposição legalizada e oficializada.

Em 22 de maio de 1377, o papa Gregório XI, volta a Roma e emite uma bula contra as idéias de John Wycliffe, devido a influência que esse exercia junto ao parlamento inglês, a bula foi quase desconsiderada.

Também os escritos sobre a definição de propriedade, serviram de base legal para que o estado pudesse legislar sobre os impostos eclesiásticos. Com essa argumentação ganhou a simpatia da nobreza e o ódio do clero. Seu maior apoiador era

John de Gaunt, Duque de Lancaster, tio de Ricardo II, próximo herdeiro do trono, devido a menoridade do sobrinho, Gaunt governou a Inglaterra entre 1377 e 1381.

Primeira Defesa do Estado Laico.

Wycliffe defendia que a igreja deveria se preocupar apenas com as questões espirituais, deixando os assuntos temporais para o estado. Em sua obra Officio Regis, defendia que o poder rela também era originário de deus. Sua tese era baseada na afirmação “dar a César o que é de César”, onde a igreja deveria se submeter a autoridade do estado. Assim ele plantou as bases para o anglicanismo.

Sua maior obra sobre o assunto é Sobre a Propriedade Privada, escrita em 1376, onde ele sugere que os bens do clero deveriam ser tomados.

O Papado e as Ordens Monásticas

A medida que as disputas ideológicas entre Wycliffe e o papado iam se intensificando, suas críticas iam ficando mais severas.

Com a liderança da igreja dividida em Roma e Avinhão, Wycliffe pregava que o cristão não precisava de uma hierarquia papal, pois Cristo está em toda parte. E que os líderes da igreja deveriam surgir de forma natural. Dizia que as ordens monásticas eram comprometidas com a pobreza, mas toda a sua considerável riqueza era mantida de forma injusta, não lhes pertencendo de forma legítima

Devido ao seu prestigio em 1374, participou de uma missão em Bugres, na incumbência de tratar da questão papal das “provisões”, isto é, o direito tradicional do Santo Padre de nomear quem quisesse para cargos eclesiásticos. Wycliffe foi contra, mas não conseguiu nada de prático. Na verdade sua atuação como diplomata foi considerado um fracasso.

Também travou uma batalha contra as ordens monásticas, que considerava seitas, mantenedoras do papado imperialista. Em seus escritos dizia que a igreja não necessitava dessas ordens, e que o ensinamento dos primeiros três séculos da igreja eram o suficientes. Incitando assim um ataque do estado contra as ordens monásticas, que tiveram suas propriedades confiscadas pela nobreza local.

A Tradução da Bíblia

Wycliffe defendia que a bíblia deveria ser a base de toda a doutrina da igreja. Dizia que a verdadeira autoridade emana da bíblia e esta contêm a base para governar o mundo. Opondo-se assim a doutrina da infalibilidade papal.

Acreditando que a bíblia deveria estar disponível a qualquer cristão, empenhou-se num projeto de tradução da bíblia. Também acreditava que a bíblia era a melhor maneira de enfrentar a autoridade do papa.

A ele coube a tradução do novo testamento e a seu amigo Nicholas de Hereford a tradução do antigo testamento. Por não conhecerem o hebraico e o grego originais, traduziram o texto do latim para o inglês – usando a tradução latina de Jerônimo, escrita à mão a mais de 100 anos.

Ambas as traduções foram continuadas e revisadas por John Purvey. Publicando em 1388 uma revisão da tradução original.

Menos de um século depois, a edição revista de Purvey havia substituído a Bíblia inicial de Wycliffe.

Apesar de estar traduzida para o inglês, a bíblia continuo sendo um instrumento de poucos, pois a maioria da população era analfabeta e os livros eram confeccionados a mão, tornado seu preço inacessível. A popularização da bíblia só se deu com a invenção da imprensa.

Sua tradução da bíblia tinha 73 livros, exatamente como a atual bíblia católica. E era escrita no inglês considerado médio, nem vulgar, nem erudito.

Restam atualmente 150 manuscritos da versão da bíblia de Wycliffe.

Os Padres Lolardos

Defendendo a pobreza do clero, organizou um grupo de pregadores para divulgar os ensinamentos cristãos. Esses padres não faziam votos e nem recebiam consagração formal, sempre andavam em dois, descalços e com um cajado na mão, essas pessoas eram conhecidas como padres lolardos. (LIMA,9)

Os ensinamentos que Wycliffe mandava os lolardos pregarem eram bem claros :

A Bíblia deveria ser colocada à disposição do povo em seu próprio idioma.

As distinções entre o clero e os leigos, com base no rito de ordenação eram contrárias às Escrituras.

Clérigos injustos deveriam ser desobedecidos.

A principal função dos ministros de Deus deveria ser pregar, e eles deveriam ser proibidos de ocupar cargos públicos, pois “ninguém pode servir a dois senhores”.

O celibato de sacerdotes e monges era uma imoralidade, que produzia aberrações sexuais, abortos e infanticídios.

O culto às imagens, as peregrinações, as orações em favor dos mortos e a doutrina da transubstanciação eram pura magia e superstição.

O grupo dos lolardos era composto por estudantes da Universidade de Oxford, pequenos proprietários e muitos pobres das áreas rurais e urbanas.

A igreja romana, através de uma declaração apoiada pelo Parlamento, em 1401, passou a perseguir e castigar com a pena de morte a pregação dos “lolardos”. E perseguição foi eficaz na destruição do movimento até o fim do século XV.

Perseguição e Morte

Sempre seus escritos e declarações lhe angariaram muitos inimigos. Em 1377, o papa Gregório XI condenou John Wycliffe por seus ensinamentos e pediu que a Universidade de Oxford o demitisse.

Por pressão do arcebispo de Canterbury, Simon de Sudbury, o reitor da universidade convocou uma assembléia para discutir os ensinos de Wycliffe sobre a ceia, e esta o condenou por estreita margem de votos, em 1380. Mesmo assim, muitos em

Oxford ainda o defendiam, e as autoridades não se atreviam a tomar atitudes contra ele.

Durante meses ele esteve preso em sua casa, privado da liberdade, com permissão para continuar escrevendo seus livros, cada vez mais agressivos.

Em 1381, uma forte rebelião social, liderada por camponeses, amedrontou a nobreza, o Rei Ricardo II, culpou os lolardos pelo ocorrido, influenciado pelos opositores de Wycliffe. Ele e seus seguidores foram expulsos da universidade de Oxford e seus ensinamentos foram proibidos em toda a Inglaterra.

Soma-se a isso o fato das posturas radicais de Wycliffe se tornarem com um tempo um problema para a diplomacia da Inglaterra, sendo necessários que aqueles mesmos que o apoiaram, pedissem para ele se calar.

Esse então se retirou para sua casa em Lutterwort, onde exerceu o cargo de reitor em Leicestershire, cargo obtido graça aos serviços prestados na defesa dos interesses do nacionalismo inglês.

Em 28 de dezembro de 1384, sofreu de um ataque de apoplexia, enquanto assistia a missa, morreu três dias depois.

Conclusão.

Os ensinamentos de Wycliffe foram precursores das ideias de reforma da religião cristã, servindo de base para outros movimentos, como os liderados por João Huss e Jerônimo de Praga. Ao todo ele escreveu 65 obras, em latim e inglês, sua última obra foi Trialogus, a síntese de suas idéias.

Um fator que facilitou a difusão de suas idéias de Wycliffe, foi o casamento de Ricardo II, da Inglaterra, com Anne da Boêmia, firmou vínculos espirituais com a Boêmia Pela influência dela, os trabalhos de Wycliffe foram levados para a Boêmia, onde Jan

Huss foi grandemente influenciado por eles. Suas idéias foram levadas para este país através de estudantes tchecos que estudavam na Universidade de Oxford (entre eles, Jerônimo de Praga), lançando os fundamentos dos ensinos de Huss.

Para combater tais movimentos a igreja convocou o concílio de Constança, entre os anos de 1414 e 1418. Onde em 4 de maio de 1415, Wycliffe foi considerado um herege e foi ordenado que seus escritos fossem queimados. O mesmo concilio ordenou que os restos mortais de Wycliffe fossem queimados, sentença essa que foi cumprida cinco anos depois. Sua cinzas foram jogadas no rio Swiff, perto de Lutherworth.

Não se pode negar a sinceridade e a inocência dos ensinamentos de Wycliffe, em querer uma religião próxima aos ensinamentos que o mesmo entendeu dos textos bíblico. Mais também não se pode negar que seus ensinamentos serviram de pretexto para o movimento social da nobreza inglesa em se desvencilhar da influência e poder do estado papal, dando autonomia ao estado inglês, ora motivados pelo sentimento nacionalista, ora pelos abusos cometidos pela igreja católica.

Muitas vezes Wycliffe foi usado como polemista e demolidor dos inimigos do estado, oriundos dos estados romanos e franceses, muitas vezes tornando-se um empecilho devido ao seu radicalismo.

Bibliografia :

CASTRO, Darivan da Silva., O Dízimo e o Sábado – 1. Edição – Clube dos Autores, 2015.

LIMA, Carlos A. Maranhão., Os Mercenários da Fé no Brasil. – Clube de Autores, 2009

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